Chumaços de algodão escondidos nas bochechas, Marlon Brando, Francis Ford Coppolla. Foi o que bastou para que Don Vito Corleone, patriarca da família de “O Poderoso Chefão” se tornasse o símbolo e referência mundial de mafioso. Mas não se engane, ele não saiu da cabeça de um roteirista e sim da de Mario Puzo, autor do livro “O Poderoso Chefão”.

Estes são todos os livros do Mario Puzo

Mas as máfias de hoje não são como as máfias de antigamente. Elas se infiltram em diversos tipos de negócios, do lixo até a alta costura, como mostra essa ótima reportagem de capa da revista Superinteressante. A Camorra, máfia italiana baseada em Nápoles, é um exemplo. Quem narra sua atuação é o jornalista italiano Roberto Saviano, no livro “Gomorra”. Ele também já virou filme, dirigido por Matteo Garrone, exibido no Brasil em 2009.

Não conhece? Eu também só tinha ouvido falar vagamente do livro e do filme, até que meu irmão apareceu com ele aqui em casa ano passado. Ele também não conhecia “Gomorra” até ir a livraria. Por que ele comprou o livro?

Gomorra é o tipo de livro que salta da estante querendo sua atenção. Um livro que aborda de jeito diferente, mais humano e dinâmico, um tema que atrai quase qualquer jovem: a máfia. Pra quem busca entender o mundo em que vive, descobrir que o sonho de um jovem mafioso italiano não é tão diferente do sonho de quase qualquer jovem no mundo (aka ser um grande jogador ou um grande empresario – o exemplo do livro é o Briatore, ex-renault e Fórmula 1) é surpreendente.  Um chute na cabeça de um jeito inesperado faz do livro uma “boa pedida”. Fikdik.

Estou na fila para ler o livro, que está com a professora de Geografia do meu irmão, e tenho algumas razões para querer lê-lo. Uma delas é que Roberto Saviano é jornalista e se infiltrou nos negócios da máfia para fazer seu livro. Ele cita nomes, explica em detalhes a organização da Camorra, narra o envolvimento na proteção de mafiosos, traficantes, contrabandistas, na lavagem de dinheiro, desenhando um perfil detalhado na máfia. Nápoles, na opinião dele, se rendeu ao crime faz tempo.

Isso tudo, é claro, gerou a ira da organização e colocou sua cabeça a prêmio. O que não o impediu de continuar dando declarações polêmicas e denunciando os crimes. Ele recebeu prêmios por sua contribuição à cultura e por fornecer dados sobre a máfia. Isso mobilizou a sociedade italiana, a ponto de Umberto Eco falar na TV que era necessária a intervenção do Estado para evitar que Saviano se tornasse mais uma vítima da máfia. Pouco depois, em 2006 (ano de lançamento do livro na Itália), Roberto Saviano foi colocado sob escolta policial. Aparentemente ela está funcionando, já que o autor está vivo até hoje.

Roberto Saviano

Quero conhecer essa nova máfia, descrita por Saviano, e ler o que de tão grave foi escrito por ele para que ele fosse jurado de morte. Enquanto o livro não chega, vou lendo tudo que aparece sobre o livro e sobre máfia. Lembrei de contar a história essa semana por que li uma matéria publicada no Estadão e ontem vi na Folha Online uma notícia sobre a inauguração do Museu da Máfia na Sicília, berço da máfia original, que pretende ser um alerta para quem o visita, explicitando a ação da organização.

Saviano prepara mais um lançamento, segundo a matéria do Estadão, dessa vez ligando a ação da máfia italiana a outros grupos criminosos do mundo. O destaque, segundo ele, é para as relações com os criminosos / mafiosos brasileiros. Mais um livro dele que parece ser imperdível. Para encerrar, uma frase de Saviano reproduzida pelo The Independent, da Inglaterra. “Iovine, Schiavone, Zagaria [chefes da Camorra] não valem nada. O poder deles se funda no medo de vocês”.

Além do Máfia Wars, do Facebook, você também pode testar esse jogo da revista Superinteressante. É só clicar na imagem.

PS: Meu irmão tem 18 anos e um gosto voraz e recente pela leitura. É quem me atualiza sobre livros de Segunda Guerra Mundial, máfia, crimes, economia, política. Mas até os 16 anos, ele gostava de livros que estivessem longe dele. Por isso, não se engane: todo mundo pode começar a gostar muito de ler, de uma hora pra outra. Leitura é uma prática que pode, sim, ser desenvolvida ao longo da vida e não apenas na infância e início da adolescência.