O Auto Da Barca do Inferno, de Gil Vicente, é um daqueles livros que provavelmente vão te mandar ler na escola – se é que ainda não mandaram.

Quer fazer da obrigação algo melhor que matéria da prova? Tente aproveitar as pitadas de humor, os personagens malucos e os papeis sociais representados por cada um dos personagens criados lá em 1517 – mas que servem até hoje direitinho!

Imagine que você morreu e sua alma está naquele limite entre o Céu e o Inferno. E que o Diabo e um Anjo julgam sua vida para decidir onde você vai passar a eternidade.

Esse resumo pode parecer velho, mas é bem divertido perceber as relações entre os dois personagens imortais e os mortais nada santos que vão para a beira do rio da morte, entre a Barca do Inferno e a Barca do Céu.
“À barca, à barca, hu-u!

Asinha, que se quer ir!

Oh, que tempo de partir,

louvores a Belzebu!”

Grita um de um lado o Diabo louco pra encher sua embarcação.

“Espera entanto per i:

veremos se vem alguém,

merecedor de tal bem,

que deva de entrar aqui.”

Pondera o Anjo, pra ver quem merece entrar na sua.

E alguém ali se salva? Um homem de fé bêbado, um rico orgulhoso que tem mil pessoas rezando por ele, uma mulher metida em bruxaria, um homem que foi pra uma Cruzada e matou uns tantos homens…

O segredo para aproveitar a leitura é ler o texto em voz alta. As palavras meio cortadas no meio do português de Portugal antigo de Gil Vicente deixam de ser complicadas e e viram melodia gostosa de recitar. E os versinhos falados por cada um dos personagens pode virar música nas mãos dos mais talentosos (os meus preferidos são do Frade bêbado, Deo Gratias!).

Uma boa inspiração pra peça de teatro na escola, garanto!